Monges Cervejeiros: Trapistas

São Bento

São Bento

O que vem a ser uma cerveja Trapista? Ou seria melhor perguntar: o que vem a ser um produto Trapista? Pergunta difícil de responder sem conhecimento da história mas a resposta curta (que não esclarece nada) é: são os produtos autorizados pela ITA – International Trappist Association – a utilizarem o selo de “Authentic Trappist Product“.

Mas acho que vale a pena contar um pouco de história para ilustrar melhor. A Ordem Trapista é uma congregação religiosa católica derivada da Ordem Cisterciense. Os trapistas são monges beneditinos cenobitas, isto é, vivem em comunidade, o que os difere dos religiosos de vida solitária. A origem desta ordem remonta à fundação da Abadia de Cister, na comuna de Saint-Nicolas-lès-Cîteaux, Borgonha, em 1098. Congregações Cistercienses se espalharam por todos os lados e, em 1664, o ábade da abadia cisterciense de Nôtre-Dame de la Trappe sentiu que os monges cistercienses estavam ficavam demasiadamente liberais. Ele introduziu então novas e estritas regras na abadia e a Estrita Observância ali nasceu. Desde então muitas regras foram relaxadas, entretanto, o princípio fundamental de que os monastérios devam ser auto-suficientes é mantido até hoje.

Abadia de La Trappe

Abadia de La Trappe em Soligny-La-Trappe, França

“Trapista” é um “apelido” da “Ordem Cisterciense da Estrita Observância” (existe também os monges da Ordem Cisterciense da Comum Observância). Este apelido nasceu justamente do fato de que seu primeiro mosteiro foi a Abadia de La Trappe em Soligny-La-Trappe, conforme mencionado. Não tem nada a ver com “trapos” ou que seriam monges “esfarrapados”, um “mito” acerca dos trapistas.

Outro mito a respeito dos trapistas é que eles seriam uma Ordem Religiosa nascida numa suposta crise de papel na Idade Média. O Papa, preocupado, teria organizado um conjunto de religiosos que iriam de “casa em casa recolhendo pedaços de pano para a confecção de papel e livros”, sendo que estes monges teriam criado o cargo de monge copista. Os copistas sempre existiram no monaquismo ocidental e nunca foram uma “invenção trapista”.

As Cervejarias Trapistas

Cervejarias Monásticas, de diferentes ordens religiosas, existem em toda Europa desde a idade média. No início da ordem Trapista, a cerveja era produzida nos monastérios cistercienses franceses seguindo a Estrita Observância. Por exemplo, o monastério de La Trappe já possuia sua própria cervejaria em 1685.

Embora os monges vivessem uma vida solitária de trabalho e oração eles acreditavam na hospitalidade e na caridade. Os monastérios eram reconhecidos como locais de refúgio seguro para viajantes que buscavam um local limpo com comidas e bebidas decentes. Os monges cultivavam ou negociavam sua comida e faziam suas próprias bebidas, assim cerveja e vinho estavam sempre disponíveis nos mosteiros. Na época, a água era insalubre e continha toda uma série de doenças. O ato de fazer a cerveja sanitizava a água e adicionava à bebida uma série de outros nutrientes importantes, portanto a cerveja (e o vinho) eram seguros para serem bebidos e eram uma parte importante da dieta diária das pessoas.

Em 820, o monastério de Saint-Gall (ou Saint-Gallen) projetou o que se tornaria o modelo para as cervejarias monásticas medievais. O projeto contemplava a construção da cervejaria em três ciclos completos de brassagem de cerveja: uma para fabricar cervejas para ser vendida a clientes e viajantes, uma para fazer a cerveja dos monges e outra para fazer cerveja para os pobres (cerveja de caridade). Cada ciclo produzia uma qualidade diferente de cerveja, sendo que cerveja de caridade era feita com insumos menos desejáveis.

Monge brassando cerveja

Monge medieval brassando cerveja

A descoberta de que era possível passar a água através dos grãos (mash) várias vezes para extrair o máximo dos grãos doi documentada pela primeira vez pelos cervejeiros jesuítas, que ofereciam uma cerveja com alto de teor alcoólico (em torno de 5%) para os viajantes e usavam a cerveja de segunda passagem (ou segundo ciclo) com um teor alcoólico menor (em torno de 2,5%) para si mesmos. O próximo grande passo veio quando eles perceberam que as pessoas pagariam muito mais por uma cerveja mais forte, mais do que o custo do grão extra. Isso permitiu que fossem feitas cervejas com mais grãos e com mais ciclos. O primeiro ciclo resultava na melhor cerveja, portanto, esta iria para os convidados e era vendida para ajudar a manter a abadia. A cerveja resultante do segundo ciclo era para o uso dos monges. Enquanto que as cervejas produzidas pelos últimos ciclos seriam para os pobres. Esta é também a origem provável dos termos “single”, “double”, “triple” e “quadruple”.

Esta tradição de auto-suntentabilidade juntamente com a hospitalidade continuou na Bélgica enquanto os Trapistas se espalhavam por toda Europa no rescaldo da Revolução Francesa e das Guerras Napoleônicas. Visto que os monges não conseguiam cultivar uvas para vinho de forma eficaz e que os países baixos (Bélgica e Holanda) eram dominados pela culturas dominadas pela cerveja, os mosteiros recém estabelecidos focaram na cerveja como a forma de manter suas abadias.

Esta tradição de auto-sustentação, juntamente com a hospitalidade continuou na Bélgica como o “Trappists” espalhados por toda a Europa no rescaldo da Revolução Francesa e as Guerras Napoleónicas. Uma vez que os monges não podiam realmente cultivar uvas para vinho de forma eficaz, e as terras baixas (Bélgica e Países Baixos) eram culturas dominadas pela cerveja, os mosteiros recém-estabelecidos focaram na cerveja como forma de manter suas abadias.

O próximo grande passo na qualidade começou no início do século 20. Com a enchente de cervejas de baixo teor alcoólico as cervejas estrangeiras começaram a ganhar uma fatia de mercado na Bélgica. Cervejarias estavam falindo em ritmo acelerado. A reação das cervejarias Trapistas, neste momento, foi dar um passo adiante e oferecer cervejas com maior teor alcoólico e paladar mais saboroso do que as cervejas concorrentes. Isso também foi exacerbado pela lei de 1919 que proibia as vendas de bebidas alcoólicas em bares belgas. Os Trapistas estavam preparados para aproveitar esta lei. Sem uma opção de bebidas de alto teor alcoólico, os clientes voltaram-se para as cervejas de maior teor alcoólico, principalmente as feitas pelos monges. À medida que mais cervejarias saíam do negócio, a demanda pela cerveja dos monges crescia constantemente, enquanto que outras alternativas saíam do mercado. Embora sendo em grande parte conservadores em relação à mudanças, os monges foram rápidos para adotar novas técnicas e equipamentos mais modernos para garantir que a qualidade do sua cerveja melhorasse continuamente. Os monges acreditam que, uma vez que eles trabalham essencialmente para Deus e em seu nome, eles devem fazer o melhor produto possível. Este tem sido o princípio motriz ao longo da história das ordens monásticas.

Produto TrapistaÀ medida que as cervejas Trapistas cresciam em fama e popularidade, alguns cervejeiros não-Trapistas começaram usar o termo “Trapista.” Os monges finalmente recorreram à uma ação legal em 1962 e, como resultado, em 1997, os mosteiros trapistas belgas (6 mosteiros), holandês (1) e alemão (1) formaram a ITA – “International Trappist Association”. Eles criaram um logotipo especial que só pode ser usado pelos mosteiros trapistas nos produtos que eles produzem. Isso inclui queijo, pão, vinho, cerveja ou qualquer outra coisa que estes mosteiros venham a produzir.

As regras que regem os direitos legalmente protegidos de usar o logo no rótulo são:

  1. A cerveja deve ser fabricada dentro das paredes de um mosteiro Trapista e ser “preparada por” ou “ser supervisionada” pelos monges.
  2. A cervejaria deve ter uma importância secundária e estar sujeita a práticas comerciais proporcionais às de uma vida monástica.
  3. A cervejaria não deve visar lucros. O dinheiro é para ser usado para pagar a manutenção do monastério e seus monges. Qualquer excesso de dinheiro deve ser usado para os empreendimentos de caridade do monastério.
  4. A qualidade das cervejas está sujeita à inspeção da qualidade.

Desde 2014 existem 11 cervejarias Trapistas reconhecidas que podem usar o logo da ITA (e vários outros que usam o rótulo em outros produtos – veja a lista da ITA aqui):

Cervejarias Trapistas Reconhecidas pela ITA
Cervejaria Localização Desde Nome Comercial
Brasserie de Rochefort  Belgium 1595 Rochefort
Brouwerij der Trappisten van Westmalle  Belgium 1836 Westmalle
Brouwerij Westvleteren/St Sixtus  Belgium 1838 Westvleteren
Bières de Chimay  Belgium 1863 Chimay
Brasserie d’Orval  Belgium 1931 Orval
Brouwerij der Sint-Benedictusabdij de Achelse Kluis  Belgium 1998 Achel
Brouwerij de Koningshoeven  Netherlands 1884 La Trappe
Stift Engelszell  Austria 2012 Gregorius e Benno
St. Joseph’s Abbey in Spencer, Massachusetts  United States 2013 Spencer
Brouwerij Abdij Maria Toevlucht  Netherlands 2014 Zundert
Tre Fontane Abbey  Italy 2014 Tre Fontane

Os Mosteiros Trapistas no Brasil

Sim, os Trapistas estão presentes no Brasil. Apesar de não haver produção de cervejas a Ordem Cisterciense da Estrita Observância possui dois mosteiros instalados por aqui, são eles:

  • Abadia Trapista Nossa Senhora do Mundo Novo – Campo do Tenente, PR
  •  Mosteiro Trapista Nossa Senhora da Boa Vista – Rio Negrinho, SC

Além destes a congregação conta ainda na América do Sul com dois mosteiros na Argentina, dois no Chile, dois na Venezuela e dois no Equador. Agora resta esperar que algum destes comece a produzir cerveja mais perto de nós.

Saúde!

Referências:

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