Parte Final – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Aqui estamos nós com a quarta e última parte desta história. Semana passada pudemos entender um pouco melhor os tempos sombrios que sondaram a indústria cervejeira do início do século 20. Vimos também como os fatos históricos contribuiram para o nascimento de gigantes, mas e no Brasil, o que rolou?

Controle de Portugal

Dois fatores contribuiram muito para o início tardio de produção de cervejas no Brasil. O primeiro fator foi o fechamento dos portos em toda costa brasileira para navios que não fossem portugueses. Esta proibição teve validade até 1808, fazendo com que novos produtos e tecnologias não chegassem ao Brasil. Outro fator que contribuiu para a chegada tardia da cerveja ao Brasil era que os portugueses temiam que a produção de cerveja impactasse o lucrativo negócio de importação de vinhos portugueses.

Somente em 1853 é que o colono alemão Henrique Kremer produziu a primeira cerveja em território tupiniquim. A cerveja de Kremer é a Bohêmia, que existe até hoje e atualmente pertence à gigante ABInbev.

Mas foi com a proclamação da república em 1889 que as primeira indústrias emergiram no Brasil. As cervejas brasileiras daquela época possuiam um alto grau de fermentação e produziam uma quantidade imensa de gás carbônico. Mesmo depois de engarrafadas, estas cervejas ainda produziam gás carbônico, causando um enorme aumento de pressão. Para conter a pressão as rolhas eram então amarradas com um barbante para impedir que as mesmas saltassem da garrafa. Esta é a origem da “Cerveja Barbante”.

Não existem muitos registros sobre as primeiras cervejarias nacionais, pois as cervejas geralmente eram produzidas e vendidas em barris sem identificação de marca. Os dois pólos industriais da época que iniciaram a produção de cerveja foram os estados do Rio de Janeiro e Pernambuco. O primeiro era muito desenvolvido para a época e era comparado a cidades européias e o segundo recebeu influência da colonização holandesa. É sabido que as primeiras marcas nacionais foram: Logos, Guarda Velha, Gabel, Vesosso, Stampa, Olinda e Leal.

Um ano crucial na história da cerveja brasileira foi 1882, quando Louis Bucher e Joaquim Salles fundaram a Antarctica, que atualmente é a terceira cerveja mais consumida no país. Já o imigrante suíço Joseph Villiger começou a fazer a própria cerveja em casa com o nome de Brahma e, junto com Paul Fritz e Ludwig Mack, em Setembro de 1888, começou sua companhia com 32 empregados e produzindo 12.000 litros de cerveja.

O Brasil ocupa hoje a terceira posição em volume de produção de cerveja no mundo. Chegamos ao fim de mais uma história com muitos detalhes sobre este líquido que a maioria aprecia. Deixem seus comentários, correções, dúvida e teremos o prazer em falar com vocês.

Saúde e um ótimo final de semana.

Parte 3 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Fala pessoal, aqui estamos nós com a terceira parte desta história. Como falamos na semana passada a cerveja lager começou cedo a ser difundida para o mundo, porém os cervejeiros também desbravaram fronteiras e foram parar no mundo novo. No final do século 19 eles estavam se adaptando e aplicando ingredientes locais, mas…

Dias Sombrios

O início do século foi bastante complicado, tanto no mundo novo como no velho mundo. A primeira guerra mundial isolou a Europa de 1914 até 1918 e suas consequências resultaram em escassez por décadas, levando até mesmo a próspera Alemanha à ruína econômica.

Em 1920 os EUA implantaram as leis que proibiam a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas, uma medida que acabou com a indústria cervejeira americana em um único golpe. Esses 13 anos de proibição tiveram um efeito devastador na indústria cervejeira americana, no entanto, algumas poucas cervejarias conseguiram sobreviver fabricando uma cerveja sem álcool (ABV inferior a 0,5%) denominada Near Beer.

Para completar, em 1939 a segunda guerra mundial colocou a Europa em agitação novamente e, mesmo com o tratado de paz e após a resolução dos conflitos em 1945, o efeito econômico ressoaria até o final do século XX.

Na América, a indústria cervejeira ficou estéril durante o período da proibição e demorou um bom tempo para a recuperação do que havia sobrado.

Nascimento de Gigantes

Contudo, as poucas empresas que resistiram se viram em um mercado com poucos concorrentes uma nação sedenta. Essas condições eram ideais para o aumento da produção industrial, porém aumentar a produção significava reduzir custos e aumentar o potencial de lucros, mas também traziam uma série de desafios técnicos. Embora uma cerveja lager possa parecer simples, quaisquer falhas são facilmente percebidas o que deixa pouca margem para falhas e erros. Outro problema era a consistência, a diferença de sabor entre bateladas não é um problema para uma produção em pequena escala, porém para uma cerveja que possui distribuição global a consistência é fundamental. Isto siginifica que as modernas lagers são extremamente dependentes de cervejeiros experientes e equipamentos de precisão.

No entanto, ao final do século 20, estes obstáculos técnicos já haviam sido resolvidos. Nos anos 70 e 80 as cervejarias multinacionais estavam em plena expansão, comprando e adquirindo cervejarias menores para formar conglomerados com enormes portfólios de marcas. A maior de todas é a Anheuser-Busch Inbev, formada pela americana Anheuser-Busch, pela belga Interbrew e pela brasileira Ambev. A ABInbev produz cerca de 25% de toda cerveja consumida no mundo, teve um faturamento de 36 bilhões de dólares em 2010 e possui mais de 200 marcas incluindo: Budweiser, Brahma, Corona, Stella Artois, Leffe, Hoegaarden, Spaten, Quilmes, Skol e muitas outras.

Também imensas temos a SAB Miller, Heineken, Carlsberg e Molson Coors. A grande maioria das cervejas consumidas no mundo hoje é produzida por uma destas empresas. A  humilde Pilsner percorreu um longo caminho desde suas origens na Bavária e é hoje um produto produzido em escala industrial por todo globo e está presente em quase todos os cantos.

Não importa onde estejamos, haverá sempre uma oferta de lager local no bar mais próximo.

Na próxima semana contaremos a última parte desta história, contemplando a chegada da cerveja em terras brasileiras.

Saúde.

Parte 2 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Semana passada falamos sobre a descoberta da fermentação no frio e sobre o amadurecimento dos processos de maltagem. Continuamos nossa história esta semana falando sobre a popularização da Lager e como ela se tornou disponível no mundo todo.

Fica mais fácil de entender a história se alguns eventos paralelos forem conhecidos. Desta forma, para começar, temos que falar um pouco sobre…

Copos e Canecos

É estranho para nós, que vivemos em um mundo moderno e temos acesso fácil a copos de vidro, imaginar que no início do século 19 estes itens eram artigo de luxo e de acesso somente aos mais abastados. Naquela época os copos eram feitos de madeira, metal, argila, cerâmica ou até mesmo couro endurecido. É sabido que a cerveja também não possuia uma aparência agradável e era escura e muito turva. Mas a indústria de vidro realmente se desenvolveu em meados do século 19, tornando os copos de vidro muito mais acessíveis à população. Tudo isto aconteceu com o surgimento das cervejas lagers claras, o que contribuiu muito na popularização do líquido dourado e transparente criado por Josef Groll em sua “Pale Lager”.

Aurora das Exportações

O novo estilo Pilsener possuía sabor marcante, refrescante e, melhor de tudo, era mais fácil de armazenar e possuia prazo de validade mais longo que as Ales tradicionais. Isto significava que as Pilsener podiam ser bebidas durante todo o ano ao invés de sazonalmente.

Tudo isso estava acontecendo no auge da revolução industrial e, com a era do vapor e o aumento da disponibilidade de transporte de longo alcance, o estilo se tornou muito popular em quase toda Europa, com as cervejarias Alemãs fazendo ótimo uso de maltes claros. E, desta forma, o mercado de exportação para as cervejarias estava acordando. Com os avanços em refrigeração e melhor entendimento das culturas de leveduras e com o evento da Pasteurização, o palco estava pronto para espalhar as cervejas lager para o mundo todo. E foi um Dinamarquês quem primeiro isolou e nomeou uma cepa de leveduras responsável pelas Lagers, o microbiologista Emil Christian Hansen, que isolou a Saccharomyces Carlsbergensis enquanto trabalhava para a conhecida cervejaria dinamarquesa Carlsberg. A Carlsberg foi pioneira na exportação de Lagers, pois estava geograficamente beneficiada para transporte marítimo. Sua exportação de cerveja foi iniciada em 1868 e ela continua famosa até hoje. Os Holandeses também iniciaram suas exportações cedo, com a Heineken iniciando as exportações em 1873 e a Grolsch em 1897. A cidade industrial de Dortmund, na Alemanha, também veio a ficar famosa pelas exportações de lagers com a Dortmunder Export, uma cerveja inspirada na Pilsener porém com sabor mais suave, influenciado pela baixa quantidade de sais minerais na água local.

Mundo Novo

Mas não eram apenas as cervejas que estavam sendo exportadas, pois os imigrantes alemães que vieram para a América trouxeram todo seu conhecimento em fazer cervejas para o mundo novo. E no decorrer no século 19 várias novas cervejarias se estabeleceram na América em uma indústria forjada nos moldes das cervejarias européias. A cervejaria Yuengling é a cervejaria mais antiga, e ainda em operação, nos EUA e foi fundada em 1823 por um imigrante alemão, David Yuengling. Frederick Miller fundou sua cervejaria em 1855, Joseph Schlitz em 1858, Adolph Coors em 1873, todos decendentes de alemães.

Em 1860, um outro alemão, Eberhard Anheuser assumiu a propriedade de uma cervejaria que estava à beira da falência e, com o casamento sua filha com Adolphus Busch, deu início às operações da cervejaria Anheuser-Busch, que iniciou a produção de uma cerveja no estilo Pilsener da Boêmia. Para homenagear a cidade Tcheca de Budweis eles deram o nome da cerveja de Budweiser, que atualmente é a cerveja mais popular da América. Mas os habitantes da cidade de Budweis não apreciaram a homenagem e não gostam de comentar, mas eles possuem a sua própria Budweiser Budvar (conhecida por aqui como Czechvar).

No final do século 19, a indústria cervejeira americana estava lutando para conseguir alcançar o estilo alemão tradicional de pilsener se utilizando de ingredientes locais, pois os ingredientes provenientes da Europa não chegavam em volume suficiente para atender à demanda, possuiam altos custos agregados pelo frete marítimo e a qualidade não era lá essas coisas.

Entrento dias sombrios estavam por vir, mas contaremos mais detalhes na próxima semana.

Saúde!

Parte 1 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

O tema escolhido em nossa 1ª Degustação, que aconteceu no último dia 27/04/2017 no Capitão Barley, foi “Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager”.  Mas por que escolhemos este tema? Qual foi a nossa proposta com esta escolha?

Escolhemos este tema porque Lager é o estilo de cerveja mais popular do mundo e por estas cervejas serem produzidas em escala industrial de milhões de hectolitros por empresas que valem bilhões. A nossa proposta foi a de agregar conhecimento e fazer com que nosso público possa entender um pouco da história deste estilo e porque ele se tornou tão popular. Mas finalmente, o que é Lager? De onde ela vêm? Por que é tão popular?

Em primeiro lugar vamos esclarecer a termilogia: Lager é um estilo de cerveja. Podemos dizer que toda Lager é uma cerveja mas não podemos dizer o contrário. E, para contar esta história apropriadamente, temos que iniciar esclarecendo que existem também as Ales (pronuncia-se eils). A diferença entre estas duas famílias está nas leveduras. As leveduras de Ale, ou Saccharomyces Cerevisiae, são leveduras de fermentação de topo. Isto significa que toda atividade de fermentação ocorre no topo da coluna de líquido (ou mosto). Outra característica desta levedura é que ela somente fermenta a cerveja em uma faixa de temperatura mais amena, cerca de 15 a 24 ºC.

Desta forma, tradicionalmente, a produção de cervejas era uma atividade sazonal pois somente era viável produzir cervejas em certas épocas do ano. No entanto existem outras cepas de leveduras e, para algumas delas, quanto mais frio melhor. Estas cepas de levedura resistentes ao frio apareceram nas cervejarias da Alemanha, pois no início do século 19 a população tinha o hábito de armazenar o alimento, incluindo a cerveja, em cavernas de gelo nos Alpes para prevenir a deterioração. Esta técnica de armazenamento cedeu o nome para o estilo Lager, pois Armazenamento em Alemão é LAGERung.

As pessoas que se utilizavam destas técnicas de armazenamento notaram que as cervejas armazenadas no frio apresentavam corpo mais leve e sabor mais seco e sutil. O açúcar era mais atenuado e o resultado era uma cerveja menos adocicada. A técnica Alemã levou ao descobrimento das leveduras resistentes ao frio, a Saccharomyces Pastorianus. Estas leveduras também ficaram conhecidas como levedura de fermentação de fundo, ou seja, toda atividade de fermentação ocorre no fundo da coluna de líquido (ou mosto). E as cervejas resultantes desta fermentação no frio eram chamadas de Lagers.

Contudo, as Lagers daquela época eram bem diferentes dos produtos comerciais que conhecemos atualmente. O malte de cevada era muito mais escuro, pois o processo de maltagem utilizado na Alemanha do século 19 não conseguia produzir um malte claro e saboroso. E estas primeiras versões escuras de Lagers originaram uma variedade de estilos que eram comumente chamadas de German Dunkels na Alemanha ou Tmavé Pivo na Bavária (atual República Tcheca).

Gabriel Sedlmayr

Entre 1820 e 1830, um cervejeiro iniciante chamado Gabriel Sedlmayr, viajou pelas regiões produtoras de cervejas na Europa para aprimorar seus conhecimentos sobre cerveja e ficou um tempo considerável no Reino Unido e da Bélgica, onde ele aprendeu novas técnicas de maltagem que produziam um malte muito mais claro, que era a base das Pale Ale britânicas. A produção de um malte mais claro era obtida utilizando-se um processo de queima indireta e lenta. Sua família era responsável pela cervejaria Spaten, na Bavária, e quando Sedlmayr retornou de sua incursão pela Europa, ele aplicou os conhecimentos adquiridos para obter uma cerveja mais estável e consistente. Porém a cerveja Lager da Bavária ainda era muito diferente do que conhecemos hoje como cerveja Lager, pois devido ao uso de maltes escuros as cervejas eram bem pretas, representando o que hoje é chamado de cerveja Dunkel ou uma variedade mais forte, a cerveja Bock.

A nova receita de cerveja lager “melhorada” se espalhou rapidamente pela Europa. Em particular, um amigo de Sedlmayr, Anton Dreher, foi quem primeiro adotou as novas técnicas de maltagem que possibilitaram a criação de uma “Pale Lager”.

Anton Dreher

Em 1840, o cervejeiro austríaco Anton Dreher desenvolveu um estilo de cerveja muito mais claro, de cor cobre-avermelhado, que foi a Schwechater Lagerbier. Este era um novo estilo de cerveja que requeria uma temperatura fria estável para maturação e armazenamento. Originalmente ele chamou a cerveja de Märtzen, ou cerveja de Março, porque a água era mais gelada e ainda havia gelo disponível. Em 1858 a Lager do Anton Dreher a medalha de ouro por excelência no Beer Exhibit em Viena. Mas a maior honraria ocorreu em 26 de novembro de 1861, quando o imperador Franz Joseph I visitou a cervejaria e concedeu a Anton Dreher a Cruz do Cavaleiro (Knight’s Cross) da Ordem de Franz Joseph.

Em 1862 ele recebeu a medalha de ouro da Feira Mundial de Paris e sua cerveja passou a ser conhecida como Viena Lager. A cervejaria Dreher hoje pertence à SABMiller.

O fato que nos interessa entretanto é que, com a melhora no controle do processo de cozimento do malte de cevada, foi possível obter cervejas mais claras e, consequentemente, mais leves. A cerveja clara elaborada por Anton Dreher foi determinante na solidificação do uso do termo Lager para as cervejas fermentadas no frio. As cervejas claras que bebemos hoje em dia possuem sua origem na região da Boêmia, por um caminho que vai da Inglaterra à Bavária.

Porque Pilsen?

Na primeira metade do século 19, os cidadãos da cidade de Pilsen, Boêmia (atual República Tcheca) não estavam satisfeitos com a cerveja fermentada por leveduras do tipo Ale devido à sua baixa qualidade e curta vida útil de armazenamento, tanto que eles esvaziaram publicamente vários barris de cerveja a fim de chamar a atenção. Assim, foi decidido pelo conselho municipal construir uma nova cervejaria, capaz de produzir uma cerveja do estilo lager que possuia uma vida útil mais prolongada. Na época, este estilo era chamado de cerveja da Bavária, pois este processo de fabricação de cerveja no frio se tornou popular nesta região e o clima na Boêmia é semelhante ao da Bavária, tornando possível armazenar gelo do inverno e permitir a fermentação durante todo o ano.

A cerveja da bavária tinha uma reputação excelente, e os cervejeiros da região eram considerados os principais mestres cervejeiros da época. Assim, os cidadãos de Pilsen, não só construíram uma nova fábrica de cerveja, mas também, em 1839, contrataram Josef Groll, um cervejeiro bávaro, para administrá-la. O pai de Josef Groll era dono de uma cervejaria em Vilshofen, na Baixa Bavária e havia muito tempo que experimentavam formular novas receitas de cerveja lager. Nesta época o processo de maltagem já havia progredido bastante e havia disponibilidade maltes realmente claros. Em 5 de outubro de 1842, Groll produziu o primeiro lote da cerveja Urquell , que ficou caracterizada pela utilização de leveduras lager, água mole da região (água com poucos sais minerais), malte claro, e lúpulo Saaz, que era produzido na cidade de Žatec, e proporcionou o efeito preservativo e amargor em adição a um distinto sabor terroso e de ervas. Assim nasceu a primeira cerveja Pilsner do mundo, a Pilsner Urquell. E este estilo de cerveja acabou sendo nominado em homenagem à cidade que a fez primeiro, Pilsen.

Não perca: na próxima semana publicaremos a segunda parte desta história.

Saúde!

 

1ª Degustação Chug-a-Lug

Data: 27/Abril/2017

Chug-a-luggers Presentes: Alexandre Fornazari, Gustavo Samogim, Marcelo Sperandim, Marco Jordan, Orlindo Martins, Ed Gomes, Alessandro Montoya, Renato Maldonado e Rodrigo Menossi.

Convidado: Cezar Pereira.

Tema: Da Bavária ao Brasil – Uma viagem Lager

Público: 47 pessoas

Presidente: Marco Jordan

A apresentação foi iniciada pelo presidente pontualmente às 20:00 com uma breve apresentação introdutória da Confraria Chug-a-Lug ao público participante. Foram apresentadas as regras da Confraria, foi explicado brevemente o que fazemos em nossas reuniões internas e foram feitos os agradecimentos especiais ao Capitão Barley, à Cervejaria Avós e à Cervejaria Hausen por terem dado apoio e suporte para a realização da degustação.

Por volta das 20:15 a sessão passou para o confrade Alexandre Fornazari que conduziu o Bate-papo: O mundo Lager. Neste bate-papo, diferentemente das reuniões internas em que algum assunto técnico é tratado, foi contada a história da cerveja Lager, seu descobrimento, amadurecimento e difusão para todo o mundo até a chegada ao Brasil, se tornando o estilo de cerveja mais popular do mundo. Esta história será contada em publicações neste blog nas próximas semanas.

Após o término do Bate-papo foram servidos os maltes: Pilsen, Cara Gold e Café e os lúpulos: Saaz, Hallertau Hersbrucker e Citra para que os presentes pudessem experimentar os mesmos e facilitar a identificação de tais ingredientes quando a degustação fosse feita. A degustação foi iniciada logo após o término da degustação de ingredientes  bate-papo e o Presidente da Reunião, Marco Jordan, apresentou formalmente aos presentes sobre suas pesquisas e o motivo da escolha do tema e da seleção de cervejas. O presidente concluiu que o universo das cervejas Lager é muito grande e pouco conhecido, por isso resolveu fazer a degustação do estilo. Foram selecionadas quatro cervejas Lager e estas foram degustadas, avaliadas, comentadas e debatidas entre os presentes.

Esta foi nossa primeira experiência com público participante (não confrades) e nossa avaliação geral foi muito positiva. Foi muito gratificante poder compartilhar conhecimento, aprender com outras pessoas, ouvir suas opiniões e agregar um pouco de valor para uma coisa que somos todos apaixonados. Podem aguardar que iremos repetir a dose.

Pra finalizar fizemos a degustação de quatro cervejas, sendo que as seguintes cervejas foram degustadas e avaliadas:

  • Cerveja Czechvar – Czech Premium Pale Lager (3B)
  • Hacker-Pschorr – Pale Kellerbier (7C)
  • Vó Maria e seu Lado Zen – American Lager (1B)
  • Hausen Dunkel – Schwarzbier (8B)

Todas as cervejas foram muito premiadas mas queremos dar enfase especial às duas brasileiras.

  • A Cervejaria Avós com sua “Vó Maria e seu Lado Zen” que foi quem recebeu a medalha de ouro em Blumenau 2017 no estilo American Lager. Como mencionado pelo cervejeiro Junior Bottura na apresentação da cerveja aos presente, a premiação foi uma agradável surpresa pois ele considerava a categoria extremamente difícil por ter havido grandes cervejas inscritas. Para se ter uma ideia a medalha de prata na mesma categoria foi para a Dama American Lager e a medalha de bronze foi para a Kirin Ichiban, jogo duro mas vencido, parabéns Junior pelas cervejas e nossos agradecimentos pela sua participação especial.
  • A Cervejaria Hausen Bier com sua cerveja Hausen Dunkel que recebeu a medalha de ouro 2016 no World Beer Awards (WBA) tanto no estilo quanto como melhor Lager do Mundo, além da medalha de ouro em 2016 para o estilo no Festival Brasileiro da Cerveja. A cervejaria de Araras, no interior de São Paulo, foi fundada por dois Engenheiros de Alimentos e a cervejaria segue a linha mais tradicionalista, como o Reinheitsgebot, ou simplesmente Lei da Pureza Alemã, de 1516, onde a cerveja deve ser feita com apenas água, malte de cevada e lúpulo (ainda não se tinha conhecimento das leveduras na época). Parabéns ao Leandro e ao André pelo carinho que produzem suas cervejas, todas muito boas. Recomendo.

E a vencedora da noite, na opinião dos presentes, foi a Vó Maria e seu Lado Zen. A Cerveja recebeu duas notas máximas em todos os quesitos, dadas por José Antônio Bachur e por Carlos Rodrigues.

A próxima reunião da confraria será definida nos próximos dias e será interna (somente confrades).

Saúde!

Insana Pale Ale

Características:

Cervejaria: Cervejaria Insana
País: Brasil
Estilo: American Pale Ale (10A)
ABV: 5,5%
Temperatura de consumo: 4 – 7 ºC
Copo Utilizado: Pint

Descrição do Fabricante:

Cerveja de alta fermentação tem como destaque sua coloração intensa e seus aromas cítricos provenientes de uma seleção de lúpulos americanos. Ideal para acompanhar comida mexicana, carnes e queijos fortes.

É aconselhável apreciar esta cerveja utilizando um copo pint.

Aroma: Frutas cítricas tipo maracuja, laranja e tangerina com um traço de malte seco.
Paladar: Leve maltado contrastando a traços citricos e um amargor final muito agradável.
Copo Ideal: Pint.
IBU: 35.

Considerações da Confraria:

A cerveja Insana Pale Ale foi nossa primeira avaliada da noite, com opiniões ligeiramente discrepantes, mas com avaliações variando entre bom e excelente. Interessante notar que uma das garrafas abertas estava contaminada o que foi proveitoso no sentido dos confrades e convidados poderem experimentar as sensações de aroma e paladar de uma cerveja contaminada. Nosso convidado Toninho, que já possui experiência em degustações, a considerou uma cerveja excepcional por ser bem fiel ao informado pelo marketing da empresa. Enquanto isso, nossos confrades Jordan e Marcelo, atribuiram as notas mais baixas sendo que o primeiro informou que não a compraria porém tomaria se lhe fosse oferecido enquanto que o Marcelo informou que a compraria para consumo. A cerveja possui uma coloração considerada ambar através do senso comum entre todos os confrades.

Embalagem:

Este quesito não foi devidamente registrado pelos confrades nem pelos convidados mas vários comentários foram tecidos sobre a embalagem. A embalagem da cerveja é a Garrafa Inglesa de 500 mL e seu rótulo é bem clássico sendo que o nome da cervejaria e o estilo são identificados facilmente. A graduação alcoólica é apresentada no rótulo e a diversificação do rótulo apenas pelas cores também ajuda a facilitar a identificação. O contra-rótulo apresenta claramente a proveniência da cerveja, passa um pouco as características da cidade de Palmas, PR com referência ao clima, altitude e água,  possui ainda o texto de apresentação da cerveja, sua harmonização sugerida, o copo recomendado, os ingredientes, armazenamento, a composição e os demais textos obrigatórios por lei. Importante ressaltar que o contra-rótulo apresenta bem claramente que o produto não deve ser ingerido por: quem está prestes a dirigir, quem é menor de 18 anos de idade e não recomendado para mulheres grávidas.

Avaliação da Embalagem:

Rótulo de estilo clássico em uma garrafa elegante resultam em uma apresentação muito boa que agrada ao olhar. As informações estão presentes e são claras, rótulo e contra-rótulo de fácil leitura e compreensão. Na minha opinião faltou apenas informar o amargor (IBU) da cerveja.

Avaliações de nossos degustadores:

Aroma: 7,2
Aparência: 7,0
Sabor: 7,2
Sensação na boca: 7,4
Impressão Geral: 7,5
Média Geral: 7,2

Ficha de Avaliação

Monges Cervejeiros: Trapistas

São Bento

São Bento

O que vem a ser uma cerveja Trapista? Ou seria melhor perguntar: o que vem a ser um produto Trapista? Pergunta difícil de responder sem conhecimento da história mas a resposta curta (que não esclarece nada) é: são os produtos autorizados pela ITA – International Trappist Association – a utilizarem o selo de “Authentic Trappist Product“.

Mas acho que vale a pena contar um pouco de história para ilustrar melhor. A Ordem Trapista é uma congregação religiosa católica derivada da Ordem Cisterciense. Os trapistas são monges beneditinos cenobitas, isto é, vivem em comunidade, o que os difere dos religiosos de vida solitária. A origem desta ordem remonta à fundação da Abadia de Cister, na comuna de Saint-Nicolas-lès-Cîteaux, Borgonha, em 1098. Congregações Cistercienses se espalharam por todos os lados e, em 1664, o ábade da abadia cisterciense de Nôtre-Dame de la Trappe sentiu que os monges cistercienses estavam ficavam demasiadamente liberais. Ele introduziu então novas e estritas regras na abadia e a Estrita Observância ali nasceu. Desde então muitas regras foram relaxadas, entretanto, o princípio fundamental de que os monastérios devam ser auto-suficientes é mantido até hoje.

Abadia de La Trappe

Abadia de La Trappe em Soligny-La-Trappe, França

“Trapista” é um “apelido” da “Ordem Cisterciense da Estrita Observância” (existe também os monges da Ordem Cisterciense da Comum Observância). Este apelido nasceu justamente do fato de que seu primeiro mosteiro foi a Abadia de La Trappe em Soligny-La-Trappe, conforme mencionado. Não tem nada a ver com “trapos” ou que seriam monges “esfarrapados”, um “mito” acerca dos trapistas.

Outro mito a respeito dos trapistas é que eles seriam uma Ordem Religiosa nascida numa suposta crise de papel na Idade Média. O Papa, preocupado, teria organizado um conjunto de religiosos que iriam de “casa em casa recolhendo pedaços de pano para a confecção de papel e livros”, sendo que estes monges teriam criado o cargo de monge copista. Os copistas sempre existiram no monaquismo ocidental e nunca foram uma “invenção trapista”.

As Cervejarias Trapistas

Cervejarias Monásticas, de diferentes ordens religiosas, existem em toda Europa desde a idade média. No início da ordem Trapista, a cerveja era produzida nos monastérios cistercienses franceses seguindo a Estrita Observância. Por exemplo, o monastério de La Trappe já possuia sua própria cervejaria em 1685.

Embora os monges vivessem uma vida solitária de trabalho e oração eles acreditavam na hospitalidade e na caridade. Os monastérios eram reconhecidos como locais de refúgio seguro para viajantes que buscavam um local limpo com comidas e bebidas decentes. Os monges cultivavam ou negociavam sua comida e faziam suas próprias bebidas, assim cerveja e vinho estavam sempre disponíveis nos mosteiros. Na época, a água era insalubre e continha toda uma série de doenças. O ato de fazer a cerveja sanitizava a água e adicionava à bebida uma série de outros nutrientes importantes, portanto a cerveja (e o vinho) eram seguros para serem bebidos e eram uma parte importante da dieta diária das pessoas.

Em 820, o monastério de Saint-Gall (ou Saint-Gallen) projetou o que se tornaria o modelo para as cervejarias monásticas medievais. O projeto contemplava a construção da cervejaria em três ciclos completos de brassagem de cerveja: uma para fabricar cervejas para ser vendida a clientes e viajantes, uma para fazer a cerveja dos monges e outra para fazer cerveja para os pobres (cerveja de caridade). Cada ciclo produzia uma qualidade diferente de cerveja, sendo que cerveja de caridade era feita com insumos menos desejáveis.

Monge brassando cerveja

Monge medieval brassando cerveja

A descoberta de que era possível passar a água através dos grãos (mash) várias vezes para extrair o máximo dos grãos doi documentada pela primeira vez pelos cervejeiros jesuítas, que ofereciam uma cerveja com alto de teor alcoólico (em torno de 5%) para os viajantes e usavam a cerveja de segunda passagem (ou segundo ciclo) com um teor alcoólico menor (em torno de 2,5%) para si mesmos. O próximo grande passo veio quando eles perceberam que as pessoas pagariam muito mais por uma cerveja mais forte, mais do que o custo do grão extra. Isso permitiu que fossem feitas cervejas com mais grãos e com mais ciclos. O primeiro ciclo resultava na melhor cerveja, portanto, esta iria para os convidados e era vendida para ajudar a manter a abadia. A cerveja resultante do segundo ciclo era para o uso dos monges. Enquanto que as cervejas produzidas pelos últimos ciclos seriam para os pobres. Esta é também a origem provável dos termos “single”, “double”, “triple” e “quadruple”.

Esta tradição de auto-suntentabilidade juntamente com a hospitalidade continuou na Bélgica enquanto os Trapistas se espalhavam por toda Europa no rescaldo da Revolução Francesa e das Guerras Napoleônicas. Visto que os monges não conseguiam cultivar uvas para vinho de forma eficaz e que os países baixos (Bélgica e Holanda) eram dominados pela culturas dominadas pela cerveja, os mosteiros recém estabelecidos focaram na cerveja como a forma de manter suas abadias.

Esta tradição de auto-sustentação, juntamente com a hospitalidade continuou na Bélgica como o “Trappists” espalhados por toda a Europa no rescaldo da Revolução Francesa e as Guerras Napoleónicas. Uma vez que os monges não podiam realmente cultivar uvas para vinho de forma eficaz, e as terras baixas (Bélgica e Países Baixos) eram culturas dominadas pela cerveja, os mosteiros recém-estabelecidos focaram na cerveja como forma de manter suas abadias.

O próximo grande passo na qualidade começou no início do século 20. Com a enchente de cervejas de baixo teor alcoólico as cervejas estrangeiras começaram a ganhar uma fatia de mercado na Bélgica. Cervejarias estavam falindo em ritmo acelerado. A reação das cervejarias Trapistas, neste momento, foi dar um passo adiante e oferecer cervejas com maior teor alcoólico e paladar mais saboroso do que as cervejas concorrentes. Isso também foi exacerbado pela lei de 1919 que proibia as vendas de bebidas alcoólicas em bares belgas. Os Trapistas estavam preparados para aproveitar esta lei. Sem uma opção de bebidas de alto teor alcoólico, os clientes voltaram-se para as cervejas de maior teor alcoólico, principalmente as feitas pelos monges. À medida que mais cervejarias saíam do negócio, a demanda pela cerveja dos monges crescia constantemente, enquanto que outras alternativas saíam do mercado. Embora sendo em grande parte conservadores em relação à mudanças, os monges foram rápidos para adotar novas técnicas e equipamentos mais modernos para garantir que a qualidade do sua cerveja melhorasse continuamente. Os monges acreditam que, uma vez que eles trabalham essencialmente para Deus e em seu nome, eles devem fazer o melhor produto possível. Este tem sido o princípio motriz ao longo da história das ordens monásticas.

Produto TrapistaÀ medida que as cervejas Trapistas cresciam em fama e popularidade, alguns cervejeiros não-Trapistas começaram usar o termo “Trapista.” Os monges finalmente recorreram à uma ação legal em 1962 e, como resultado, em 1997, os mosteiros trapistas belgas (6 mosteiros), holandês (1) e alemão (1) formaram a ITA – “International Trappist Association”. Eles criaram um logotipo especial que só pode ser usado pelos mosteiros trapistas nos produtos que eles produzem. Isso inclui queijo, pão, vinho, cerveja ou qualquer outra coisa que estes mosteiros venham a produzir.

As regras que regem os direitos legalmente protegidos de usar o logo no rótulo são:

  1. A cerveja deve ser fabricada dentro das paredes de um mosteiro Trapista e ser “preparada por” ou “ser supervisionada” pelos monges.
  2. A cervejaria deve ter uma importância secundária e estar sujeita a práticas comerciais proporcionais às de uma vida monástica.
  3. A cervejaria não deve visar lucros. O dinheiro é para ser usado para pagar a manutenção do monastério e seus monges. Qualquer excesso de dinheiro deve ser usado para os empreendimentos de caridade do monastério.
  4. A qualidade das cervejas está sujeita à inspeção da qualidade.

Desde 2014 existem 11 cervejarias Trapistas reconhecidas que podem usar o logo da ITA (e vários outros que usam o rótulo em outros produtos – veja a lista da ITA aqui):

Cervejarias Trapistas Reconhecidas pela ITA
Cervejaria Localização Desde Nome Comercial
Brasserie de Rochefort  Belgium 1595 Rochefort
Brouwerij der Trappisten van Westmalle  Belgium 1836 Westmalle
Brouwerij Westvleteren/St Sixtus  Belgium 1838 Westvleteren
Bières de Chimay  Belgium 1863 Chimay
Brasserie d’Orval  Belgium 1931 Orval
Brouwerij der Sint-Benedictusabdij de Achelse Kluis  Belgium 1998 Achel
Brouwerij de Koningshoeven  Netherlands 1884 La Trappe
Stift Engelszell  Austria 2012 Gregorius e Benno
St. Joseph’s Abbey in Spencer, Massachusetts  United States 2013 Spencer
Brouwerij Abdij Maria Toevlucht  Netherlands 2014 Zundert
Tre Fontane Abbey  Italy 2014 Tre Fontane

Os Mosteiros Trapistas no Brasil

Sim, os Trapistas estão presentes no Brasil. Apesar de não haver produção de cervejas a Ordem Cisterciense da Estrita Observância possui dois mosteiros instalados por aqui, são eles:

  • Abadia Trapista Nossa Senhora do Mundo Novo – Campo do Tenente, PR
  •  Mosteiro Trapista Nossa Senhora da Boa Vista – Rio Negrinho, SC

Além destes a congregação conta ainda na América do Sul com dois mosteiros na Argentina, dois no Chile, dois na Venezuela e dois no Equador. Agora resta esperar que algum destes comece a produzir cerveja mais perto de nós.

Saúde!

Referências:

A verdadeira história do surgimento da IPA

Fala Galera,

Em nossa última reunião da Confraria surgiu o assunto sobre estilos e entre eles o estilo IPA. Pergunta inevitável, alguém me questionou sobre a origem do estilo e eu contei a já conhecida história de que o estilo nasceu da necessidade de se colocar muito lúpulo para preservar a cerveja quando esta era transportada por navios para a Índia, de maneira a alimentar o mercado local para os colonizadores Britânicos. Ao final da história eu informei a todos que alguém já havia me informado que esta história não era verdadeira, mas que eu não conhecia a outra versão.

Bem, resolvi pesquisar e descobri que a história é na realidade muito mais interessante. E raciocinando bem, é fácil concluir que a versão simplificada realmente não é plausível e não se sustenta por si só, afinal os Britânicos, durante o período de colonização dá Índia, enviavam Porters para a colônia e estas chegavam lá em perfeito estado de consumo.

O termo Pale Ale originalmente era utilizado para uma cerveja em que se havia utilizado um malte claro. As Pale Ales do início do século 18 eram ligeiramente lupuladas e bastante diferentes das Pale Ales de hoje. Em meados do século 18, a maioria das cervejas Pale Ale eram feitas com malte produzido com carvão de coque, os quais produziam menos fumaça e torravam menos a cevada durante o processo de malteação e, desta maneira, produziam uma cerveja ainda mais clara. Uma das variedades da cerveja naquela época era a “October Beer“, uma Pale Ale bem mais lupulada e popular entre os aristrocratas, os quais produziam a mesma domesticamente. Uma vez produzida estas cervejas eram maturadas por dois anos.

Entre as primeiras cervejarias conhecidas a exportarem cerveja para a ìndia estava a George Hodgson’s Bow Brewery, na divisa entre Middlesex e Essex. As cervejas da Cervejaria Bow se tornaram popular entre os comerciantes da East India Company no final do século 18 devido a localização da cervejaria ser próxima das docas da East India Company e à linha de crédito liberal de Hodgson de 18 meses. Os navios transportavam as cervejas de Hodgson para a Índia e entre elas estava a “October Beer“, a qual se beneficiava excepcionalmente das condições da viagem e eram altamente apreciadas por seus consumidores na Índia. A Cervejaria Bow ficou sob o controle do filho de Hodgson no início do século 19, mas as suas práticas de negócios alienaram seus clientes. Durante o mesmo período, várias cervejarias de Burton perderam suas exportações para o mercado Russo, quando o Czar baniu o comércio com a Europa, e estavam procurando por um novo mercado para exportar suas cervejas.

A pedido da East India Company, a cervejaria Allsopp desenvolveu uma Pale Ale fortemente lupulada seguindo o estilo de Hodgson para que fosse exportada para a Índia. Outras cervejarias de Burton, incluindo a Bass e a Salt, estavam ansiosas para substituir o mercado de exportação Russo que haviam perdido e rapidamente seguiram os passos da Allsopp. Talvez como resultado das vantagens da qualidade da água de Burton para a cerveja, a Burton India Pale Ale era preferida pelos mercadores e seus clientes na Índia, mas a cerveja “October Beer” de Hodgson claramente influenciou os cervejeiros de Burton a produzirem as India Pale Ale.

A tentativa da cervejaria Charrington de enviar barris de “India Ale” para Madras (hoje Chennai) e Calcultá em 1827 foi um sucesso e um comércio regular surgiu com os principais agentes e revendores Britânicos: Griffiths & Co em Madras; Adam, Skinner and Co. em Mumbai e Bruce, Allen & Co. em Calcultá.

As primeiras IPA, como as das cervejarias de Burton ou a Hodgson, eram somente ligeiramente mais alcoólicas que a maioria das cervejas produzidas naquela época e não haviam sido consideradas como cervejas fortes.  No entanto, uma grande proporção do mosto era bem fermentada, deixando para trás algum açúcar residual, e a cerveja era fortemente lupulada. A versão comum de que as primeiras IPA eram muito mais fortes que as outras cervejas da época é, na verdade, um mito. Embora as IPAs eram formuladas para sobreviver longas viagens pelo mar melhor que outros estilos da época, as Porters também eram enviadas para a Índia e para a Califórnia com sucesso. Está claro que nos idos de 1860 as IPAs eram amplamente produzidas na Inglaterra e elas eram muito mais tênues e altamente lupuladas que Porters and muitas outras cervejas.

A demanda para a Pale Ale estilo exportação, que tinha se tornado conhecida como India Pale Ale, se desenvolveu na Inglaterra por volta de 1840 e a IPA se tornou um produto popular na Inglaterra. Algumas cervejarias abandonaram o termo “India” no final do século 19, mas os registros indicam que estas “Pale Ales” mantiveram as características das primeiras IPAs. Cervejarias americanas, australianas e canadenses produziram cervejas com o rótulo IPA após 1900, e os registros sugerem que estas cervejas eram similares às IPAs Inglesas da época.

Cervejas do estilo IPA começaram a ser exportadas por outras colônias Britânicas, como Austrália e Nova Zelândia, e nessa época muitas cervejarias removeram o “I” do “IPA” e chamaram as cervejas simplesmente de Pale Ales ou Export Pales. Muitas cervejarias, como a Kirkstall Brewery, enviaram grande quantidade de cervejas de exportação para o mundo todo através de navios à vapor para serem leiloadas a atacadistas locais.

Conclusão: é fato que as cervejas IPA eram formuladas para resistir a longa jornada de navio, contudo outros estilos eram enviados para a Índia e as cervejas chegavam próprias para consumo. O texto deixa claro que a origem do estilo na verdade foi a “October Beer” e a ansiedade das cervejarias de Burton de exportar para as Índias, imitando assim a “October Beer” da Hodgson.

Saúde.