Parte Final – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Aqui estamos nós com a quarta e última parte desta história. Semana passada pudemos entender um pouco melhor os tempos sombrios que sondaram a indústria cervejeira do início do século 20. Vimos também como os fatos históricos contribuiram para o nascimento de gigantes, mas e no Brasil, o que rolou?

Controle de Portugal

Dois fatores contribuiram muito para o início tardio de produção de cervejas no Brasil. O primeiro fator foi o fechamento dos portos em toda costa brasileira para navios que não fossem portugueses. Esta proibição teve validade até 1808, fazendo com que novos produtos e tecnologias não chegassem ao Brasil. Outro fator que contribuiu para a chegada tardia da cerveja ao Brasil era que os portugueses temiam que a produção de cerveja impactasse o lucrativo negócio de importação de vinhos portugueses.

Somente em 1853 é que o colono alemão Henrique Kremer produziu a primeira cerveja em território tupiniquim. A cerveja de Kremer é a Bohêmia, que existe até hoje e atualmente pertence à gigante ABInbev.

Mas foi com a proclamação da república em 1889 que as primeira indústrias emergiram no Brasil. As cervejas brasileiras daquela época possuiam um alto grau de fermentação e produziam uma quantidade imensa de gás carbônico. Mesmo depois de engarrafadas, estas cervejas ainda produziam gás carbônico, causando um enorme aumento de pressão. Para conter a pressão as rolhas eram então amarradas com um barbante para impedir que as mesmas saltassem da garrafa. Esta é a origem da “Cerveja Barbante”.

Não existem muitos registros sobre as primeiras cervejarias nacionais, pois as cervejas geralmente eram produzidas e vendidas em barris sem identificação de marca. Os dois pólos industriais da época que iniciaram a produção de cerveja foram os estados do Rio de Janeiro e Pernambuco. O primeiro era muito desenvolvido para a época e era comparado a cidades européias e o segundo recebeu influência da colonização holandesa. É sabido que as primeiras marcas nacionais foram: Logos, Guarda Velha, Gabel, Vesosso, Stampa, Olinda e Leal.

Um ano crucial na história da cerveja brasileira foi 1882, quando Louis Bucher e Joaquim Salles fundaram a Antarctica, que atualmente é a terceira cerveja mais consumida no país. Já o imigrante suíço Joseph Villiger começou a fazer a própria cerveja em casa com o nome de Brahma e, junto com Paul Fritz e Ludwig Mack, em Setembro de 1888, começou sua companhia com 32 empregados e produzindo 12.000 litros de cerveja.

O Brasil ocupa hoje a terceira posição em volume de produção de cerveja no mundo. Chegamos ao fim de mais uma história com muitos detalhes sobre este líquido que a maioria aprecia. Deixem seus comentários, correções, dúvida e teremos o prazer em falar com vocês.

Saúde e um ótimo final de semana.

Parte 3 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Fala pessoal, aqui estamos nós com a terceira parte desta história. Como falamos na semana passada a cerveja lager começou cedo a ser difundida para o mundo, porém os cervejeiros também desbravaram fronteiras e foram parar no mundo novo. No final do século 19 eles estavam se adaptando e aplicando ingredientes locais, mas…

Dias Sombrios

O início do século foi bastante complicado, tanto no mundo novo como no velho mundo. A primeira guerra mundial isolou a Europa de 1914 até 1918 e suas consequências resultaram em escassez por décadas, levando até mesmo a próspera Alemanha à ruína econômica.

Em 1920 os EUA implantaram as leis que proibiam a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas, uma medida que acabou com a indústria cervejeira americana em um único golpe. Esses 13 anos de proibição tiveram um efeito devastador na indústria cervejeira americana, no entanto, algumas poucas cervejarias conseguiram sobreviver fabricando uma cerveja sem álcool (ABV inferior a 0,5%) denominada Near Beer.

Para completar, em 1939 a segunda guerra mundial colocou a Europa em agitação novamente e, mesmo com o tratado de paz e após a resolução dos conflitos em 1945, o efeito econômico ressoaria até o final do século XX.

Na América, a indústria cervejeira ficou estéril durante o período da proibição e demorou um bom tempo para a recuperação do que havia sobrado.

Nascimento de Gigantes

Contudo, as poucas empresas que resistiram se viram em um mercado com poucos concorrentes uma nação sedenta. Essas condições eram ideais para o aumento da produção industrial, porém aumentar a produção significava reduzir custos e aumentar o potencial de lucros, mas também traziam uma série de desafios técnicos. Embora uma cerveja lager possa parecer simples, quaisquer falhas são facilmente percebidas o que deixa pouca margem para falhas e erros. Outro problema era a consistência, a diferença de sabor entre bateladas não é um problema para uma produção em pequena escala, porém para uma cerveja que possui distribuição global a consistência é fundamental. Isto siginifica que as modernas lagers são extremamente dependentes de cervejeiros experientes e equipamentos de precisão.

No entanto, ao final do século 20, estes obstáculos técnicos já haviam sido resolvidos. Nos anos 70 e 80 as cervejarias multinacionais estavam em plena expansão, comprando e adquirindo cervejarias menores para formar conglomerados com enormes portfólios de marcas. A maior de todas é a Anheuser-Busch Inbev, formada pela americana Anheuser-Busch, pela belga Interbrew e pela brasileira Ambev. A ABInbev produz cerca de 25% de toda cerveja consumida no mundo, teve um faturamento de 36 bilhões de dólares em 2010 e possui mais de 200 marcas incluindo: Budweiser, Brahma, Corona, Stella Artois, Leffe, Hoegaarden, Spaten, Quilmes, Skol e muitas outras.

Também imensas temos a SAB Miller, Heineken, Carlsberg e Molson Coors. A grande maioria das cervejas consumidas no mundo hoje é produzida por uma destas empresas. A  humilde Pilsner percorreu um longo caminho desde suas origens na Bavária e é hoje um produto produzido em escala industrial por todo globo e está presente em quase todos os cantos.

Não importa onde estejamos, haverá sempre uma oferta de lager local no bar mais próximo.

Na próxima semana contaremos a última parte desta história, contemplando a chegada da cerveja em terras brasileiras.

Saúde.

Parte 2 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Semana passada falamos sobre a descoberta da fermentação no frio e sobre o amadurecimento dos processos de maltagem. Continuamos nossa história esta semana falando sobre a popularização da Lager e como ela se tornou disponível no mundo todo.

Fica mais fácil de entender a história se alguns eventos paralelos forem conhecidos. Desta forma, para começar, temos que falar um pouco sobre…

Copos e Canecos

É estranho para nós, que vivemos em um mundo moderno e temos acesso fácil a copos de vidro, imaginar que no início do século 19 estes itens eram artigo de luxo e de acesso somente aos mais abastados. Naquela época os copos eram feitos de madeira, metal, argila, cerâmica ou até mesmo couro endurecido. É sabido que a cerveja também não possuia uma aparência agradável e era escura e muito turva. Mas a indústria de vidro realmente se desenvolveu em meados do século 19, tornando os copos de vidro muito mais acessíveis à população. Tudo isto aconteceu com o surgimento das cervejas lagers claras, o que contribuiu muito na popularização do líquido dourado e transparente criado por Josef Groll em sua “Pale Lager”.

Aurora das Exportações

O novo estilo Pilsener possuía sabor marcante, refrescante e, melhor de tudo, era mais fácil de armazenar e possuia prazo de validade mais longo que as Ales tradicionais. Isto significava que as Pilsener podiam ser bebidas durante todo o ano ao invés de sazonalmente.

Tudo isso estava acontecendo no auge da revolução industrial e, com a era do vapor e o aumento da disponibilidade de transporte de longo alcance, o estilo se tornou muito popular em quase toda Europa, com as cervejarias Alemãs fazendo ótimo uso de maltes claros. E, desta forma, o mercado de exportação para as cervejarias estava acordando. Com os avanços em refrigeração e melhor entendimento das culturas de leveduras e com o evento da Pasteurização, o palco estava pronto para espalhar as cervejas lager para o mundo todo. E foi um Dinamarquês quem primeiro isolou e nomeou uma cepa de leveduras responsável pelas Lagers, o microbiologista Emil Christian Hansen, que isolou a Saccharomyces Carlsbergensis enquanto trabalhava para a conhecida cervejaria dinamarquesa Carlsberg. A Carlsberg foi pioneira na exportação de Lagers, pois estava geograficamente beneficiada para transporte marítimo. Sua exportação de cerveja foi iniciada em 1868 e ela continua famosa até hoje. Os Holandeses também iniciaram suas exportações cedo, com a Heineken iniciando as exportações em 1873 e a Grolsch em 1897. A cidade industrial de Dortmund, na Alemanha, também veio a ficar famosa pelas exportações de lagers com a Dortmunder Export, uma cerveja inspirada na Pilsener porém com sabor mais suave, influenciado pela baixa quantidade de sais minerais na água local.

Mundo Novo

Mas não eram apenas as cervejas que estavam sendo exportadas, pois os imigrantes alemães que vieram para a América trouxeram todo seu conhecimento em fazer cervejas para o mundo novo. E no decorrer no século 19 várias novas cervejarias se estabeleceram na América em uma indústria forjada nos moldes das cervejarias européias. A cervejaria Yuengling é a cervejaria mais antiga, e ainda em operação, nos EUA e foi fundada em 1823 por um imigrante alemão, David Yuengling. Frederick Miller fundou sua cervejaria em 1855, Joseph Schlitz em 1858, Adolph Coors em 1873, todos decendentes de alemães.

Em 1860, um outro alemão, Eberhard Anheuser assumiu a propriedade de uma cervejaria que estava à beira da falência e, com o casamento sua filha com Adolphus Busch, deu início às operações da cervejaria Anheuser-Busch, que iniciou a produção de uma cerveja no estilo Pilsener da Boêmia. Para homenagear a cidade Tcheca de Budweis eles deram o nome da cerveja de Budweiser, que atualmente é a cerveja mais popular da América. Mas os habitantes da cidade de Budweis não apreciaram a homenagem e não gostam de comentar, mas eles possuem a sua própria Budweiser Budvar (conhecida por aqui como Czechvar).

No final do século 19, a indústria cervejeira americana estava lutando para conseguir alcançar o estilo alemão tradicional de pilsener se utilizando de ingredientes locais, pois os ingredientes provenientes da Europa não chegavam em volume suficiente para atender à demanda, possuiam altos custos agregados pelo frete marítimo e a qualidade não era lá essas coisas.

Entrento dias sombrios estavam por vir, mas contaremos mais detalhes na próxima semana.

Saúde!

Primeira Reunião – Confraria Chug-a-Lug

Data: 24/Novembro/2016logo-wordpress

Chug-a-Luggers Presentes: Alessandro Montoya, Alexandre Fornazari, Gustavo Samogim, Marcelo Sperandim, Marco Jordan, Orlindo Martins, Renato Maldonado e Ricardo Valência.
Chug-a-Luggers Ausentes: Ed Gomes e Eduardo Simões

Convidados: Sem convidados na primeira reunião.

Presidente: Alexandre Fornazari
Relator: Alexandre Fornazari

A reunião foi iniciada às 20:30 conforme planejado com todos confrades presentes. Foi feita uma breve apresentação do formato das reuniões, das regras da confraria e das possibilidades futuras. Foi também conversado sobre o documento, sobre a necessidade das regras e sobre a primeira revisão a ser consolidada após a terceira reunião e, após este período, as revisões – caso existam – somente serão feitas anualmente. Após as introduções necessárias foi apresentada a degustação do dia, os estilos e as cervejas escolhidas. Foi também apresentado aos confrades pelo presidente o “Beer Score Card” para que os confrades pudessem avaliar e atribuir notas às cervejas, com o intuito de começarmos a formar uma base de dados de cervejas e suas avaliações.

Muitas dúvidas foram apresentadas sobre ésteres e fenóis, formato do colarinho etc. Algumas foram esclarecidas e outras apenas geraram mais dúvidas, mas com o tempo vamos aprendendo juntos e vamos matando as charadas. O importante é curtir as degustações, as brejas e a experiência com os amigos.

Nota Importante: Um comentário digno de nota e já considerado na primeira alteração do documento da Confraria foi com relação à quantidade de cervejas a serem degustadas. Foi sugerido pelos confrades que esta quantidade seja reduzida de cinco para quatro cervejas.

As seguintes cervejas foram degustadas e avaliadas:
– 1500 – Premium American Lager (1C)
– Hofbräu Original – Minich Helles (1D)
– Warsteiner Premium Verum – German Pilsener (2A)
– Praga – Bohemian Pilsener (2B)
– 1795 – Bohemian Pilsener (2B)

E a estrela da noite, na opinião dos confrades, foi a 1795 com 7,3 pontos.

Saúde!!

1795

Características:1795

Cervejaria: Budejovicky Mestansky Pivovar
País: República Tcheca
Estilo: Bohemian Pilsener (2B)
ABV: 4,7%
Temperatura de consumo: 5 – 7 ºC
Copo Utilizado: Lager

Descrição do Fabricante:

Fabricada sob rigorosos e tradicionais processos, com malte próprio e o lúpulo de Saaz, a 1795 é uma cerveja premium lager dourada, com paladar redondo e balanceado amargor. Possui aroma fresco e floral, ideal para acompanhar pratos condimentados (ex. culinária thai, indiana ou chinesa), peixes e saladas e para ser apreciada nos mais diversos momentos. Estilo: lager (baixa fermentação) – 4,7% teor alcoólico. Cor: dourada brilhante.  Aroma: floral e fresco Paladar: encorpado, bem balanceado, com boa presença de lúpulo e toques vegetais.

Considerações da Confraria:

Nossa escolhida da noite, esta cerveja teve opiniões bem consistentes, exceto por um confrade que informou que beberia novamente mas não compraria. Procuramos identificar as qualidades ressaltadas nos textos encontrados sobre a cerveja e a maioria destas qualidades foram percebidas, como sabor balanceado, corpo, presença do lúpulo etc. O confrade Renato Maldonado notou um sabor metálico, que segundo ele foi percebido como “sangue”. Apesar das cervejas degustadas terem ficado em repouso por mais de uma semana, isto pode ser devido a alguma oxidação por alguma falha como vedação ou micro trinca no gargalo da cerveja, porém outros confrades tomaram da mesma amostra (garrafa) e não notaram o sabor metálico. Pior avaliação foi feita pelo Renato Maldonado, com 6 pontos (Muito Bom) e a melhor avaliação foi a minha e a do Ricardo Valência, com 8,6 pontos (Excelente).

Avaliações de nossos degustadores:

Aroma: 7,4
Aparência: 7,4
Sabor: 6,9
Sensação na boca: 7,8
Impressão Geral: 7,8
Média Geral: 7,3

Ficha de Avaliação

Praga

Características:praga

Cervejaria: Budejovicky Mestansky Pivovar
País: República Tcheca
Estilo: Bohemian Pilsener (2B)
ABV: 4,7%
Temperatura de consumo: 5 – 7 ºC
Copo Utilizado: Lager

Descrição do Fabricante:

Recém chegada ao mercado brasileiro, a cerveja Pilsen Checa Praga é 100% puro malte e natural (segue a Lei de Pureza). Possui 4,7% de teor alcoólico. É uma cerveja rica em lúpulo de Saaz, é uma cerveja clara clássica, com aroma fresco maltado e lupulado e moderado amargor. Refrescante, leve, fácil de beber, ideal para acompanhar desde pratos leves como sushis, frutos do mar, queijos frescos e saladas, até pratos mais picantes e condimentados.

Considerações da Confraria:

Cerveja de aroma bem marcante, com uma coloração amarelo dourado bem límpida e amargor moderado. As opiniões foram bastante diversas sendo que dois confrades informaram que não beberiam esta cerveja novamente, três compraria a cerveja para consumo, dois informaram que beberiam novamente mas não comprariam e um ficou indefinido. Pior avaliação foi feita pelo Marco Jordan, com 3,6 pontos (Regular) e a melhor avaliação foi a do Marcelo Sperandin, com 9 pontos (Excepcional).

Avaliações de nossos degustadores:

Aroma: 7,5
Aparência: 5,9
Sabor: 5,2
Sensação na boca: 7,8
Impressão Geral: 6,3
Média Geral: 6,8

Ficha de Avaliação