Parte 3 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Fala pessoal, aqui estamos nós com a terceira parte desta história. Como falamos na semana passada a cerveja lager começou cedo a ser difundida para o mundo, porém os cervejeiros também desbravaram fronteiras e foram parar no mundo novo. No final do século 19 eles estavam se adaptando e aplicando ingredientes locais, mas…

Dias Sombrios

O início do século foi bastante complicado, tanto no mundo novo como no velho mundo. A primeira guerra mundial isolou a Europa de 1914 até 1918 e suas consequências resultaram em escassez por décadas, levando até mesmo a próspera Alemanha à ruína econômica.

Em 1920 os EUA implantaram as leis que proibiam a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas, uma medida que acabou com a indústria cervejeira americana em um único golpe. Esses 13 anos de proibição tiveram um efeito devastador na indústria cervejeira americana, no entanto, algumas poucas cervejarias conseguiram sobreviver fabricando uma cerveja sem álcool (ABV inferior a 0,5%) denominada Near Beer.

Para completar, em 1939 a segunda guerra mundial colocou a Europa em agitação novamente e, mesmo com o tratado de paz e após a resolução dos conflitos em 1945, o efeito econômico ressoaria até o final do século XX.

Na América, a indústria cervejeira ficou estéril durante o período da proibição e demorou um bom tempo para a recuperação do que havia sobrado.

Nascimento de Gigantes

Contudo, as poucas empresas que resistiram se viram em um mercado com poucos concorrentes uma nação sedenta. Essas condições eram ideais para o aumento da produção industrial, porém aumentar a produção significava reduzir custos e aumentar o potencial de lucros, mas também traziam uma série de desafios técnicos. Embora uma cerveja lager possa parecer simples, quaisquer falhas são facilmente percebidas o que deixa pouca margem para falhas e erros. Outro problema era a consistência, a diferença de sabor entre bateladas não é um problema para uma produção em pequena escala, porém para uma cerveja que possui distribuição global a consistência é fundamental. Isto siginifica que as modernas lagers são extremamente dependentes de cervejeiros experientes e equipamentos de precisão.

No entanto, ao final do século 20, estes obstáculos técnicos já haviam sido resolvidos. Nos anos 70 e 80 as cervejarias multinacionais estavam em plena expansão, comprando e adquirindo cervejarias menores para formar conglomerados com enormes portfólios de marcas. A maior de todas é a Anheuser-Busch Inbev, formada pela americana Anheuser-Busch, pela belga Interbrew e pela brasileira Ambev. A ABInbev produz cerca de 25% de toda cerveja consumida no mundo, teve um faturamento de 36 bilhões de dólares em 2010 e possui mais de 200 marcas incluindo: Budweiser, Brahma, Corona, Stella Artois, Leffe, Hoegaarden, Spaten, Quilmes, Skol e muitas outras.

Também imensas temos a SAB Miller, Heineken, Carlsberg e Molson Coors. A grande maioria das cervejas consumidas no mundo hoje é produzida por uma destas empresas. A  humilde Pilsner percorreu um longo caminho desde suas origens na Bavária e é hoje um produto produzido em escala industrial por todo globo e está presente em quase todos os cantos.

Não importa onde estejamos, haverá sempre uma oferta de lager local no bar mais próximo.

Na próxima semana contaremos a última parte desta história, contemplando a chegada da cerveja em terras brasileiras.

Saúde.

Parte 2 – Da Bavária ao Brasil: uma viagem Lager

Semana passada falamos sobre a descoberta da fermentação no frio e sobre o amadurecimento dos processos de maltagem. Continuamos nossa história esta semana falando sobre a popularização da Lager e como ela se tornou disponível no mundo todo.

Fica mais fácil de entender a história se alguns eventos paralelos forem conhecidos. Desta forma, para começar, temos que falar um pouco sobre…

Copos e Canecos

É estranho para nós, que vivemos em um mundo moderno e temos acesso fácil a copos de vidro, imaginar que no início do século 19 estes itens eram artigo de luxo e de acesso somente aos mais abastados. Naquela época os copos eram feitos de madeira, metal, argila, cerâmica ou até mesmo couro endurecido. É sabido que a cerveja também não possuia uma aparência agradável e era escura e muito turva. Mas a indústria de vidro realmente se desenvolveu em meados do século 19, tornando os copos de vidro muito mais acessíveis à população. Tudo isto aconteceu com o surgimento das cervejas lagers claras, o que contribuiu muito na popularização do líquido dourado e transparente criado por Josef Groll em sua “Pale Lager”.

Aurora das Exportações

O novo estilo Pilsener possuía sabor marcante, refrescante e, melhor de tudo, era mais fácil de armazenar e possuia prazo de validade mais longo que as Ales tradicionais. Isto significava que as Pilsener podiam ser bebidas durante todo o ano ao invés de sazonalmente.

Tudo isso estava acontecendo no auge da revolução industrial e, com a era do vapor e o aumento da disponibilidade de transporte de longo alcance, o estilo se tornou muito popular em quase toda Europa, com as cervejarias Alemãs fazendo ótimo uso de maltes claros. E, desta forma, o mercado de exportação para as cervejarias estava acordando. Com os avanços em refrigeração e melhor entendimento das culturas de leveduras e com o evento da Pasteurização, o palco estava pronto para espalhar as cervejas lager para o mundo todo. E foi um Dinamarquês quem primeiro isolou e nomeou uma cepa de leveduras responsável pelas Lagers, o microbiologista Emil Christian Hansen, que isolou a Saccharomyces Carlsbergensis enquanto trabalhava para a conhecida cervejaria dinamarquesa Carlsberg. A Carlsberg foi pioneira na exportação de Lagers, pois estava geograficamente beneficiada para transporte marítimo. Sua exportação de cerveja foi iniciada em 1868 e ela continua famosa até hoje. Os Holandeses também iniciaram suas exportações cedo, com a Heineken iniciando as exportações em 1873 e a Grolsch em 1897. A cidade industrial de Dortmund, na Alemanha, também veio a ficar famosa pelas exportações de lagers com a Dortmunder Export, uma cerveja inspirada na Pilsener porém com sabor mais suave, influenciado pela baixa quantidade de sais minerais na água local.

Mundo Novo

Mas não eram apenas as cervejas que estavam sendo exportadas, pois os imigrantes alemães que vieram para a América trouxeram todo seu conhecimento em fazer cervejas para o mundo novo. E no decorrer no século 19 várias novas cervejarias se estabeleceram na América em uma indústria forjada nos moldes das cervejarias européias. A cervejaria Yuengling é a cervejaria mais antiga, e ainda em operação, nos EUA e foi fundada em 1823 por um imigrante alemão, David Yuengling. Frederick Miller fundou sua cervejaria em 1855, Joseph Schlitz em 1858, Adolph Coors em 1873, todos decendentes de alemães.

Em 1860, um outro alemão, Eberhard Anheuser assumiu a propriedade de uma cervejaria que estava à beira da falência e, com o casamento sua filha com Adolphus Busch, deu início às operações da cervejaria Anheuser-Busch, que iniciou a produção de uma cerveja no estilo Pilsener da Boêmia. Para homenagear a cidade Tcheca de Budweis eles deram o nome da cerveja de Budweiser, que atualmente é a cerveja mais popular da América. Mas os habitantes da cidade de Budweis não apreciaram a homenagem e não gostam de comentar, mas eles possuem a sua própria Budweiser Budvar (conhecida por aqui como Czechvar).

No final do século 19, a indústria cervejeira americana estava lutando para conseguir alcançar o estilo alemão tradicional de pilsener se utilizando de ingredientes locais, pois os ingredientes provenientes da Europa não chegavam em volume suficiente para atender à demanda, possuiam altos custos agregados pelo frete marítimo e a qualidade não era lá essas coisas.

Entrento dias sombrios estavam por vir, mas contaremos mais detalhes na próxima semana.

Saúde!